Produtividade e Inépcia

Algumas escolas e economistas enfatizam o problema de produtividade brasileiro. “O Brasil não cresce porque é improdutivo”. “Protegemos os incompetentes”. “Os poucos setores produtivos do Brasil são o agronegócio e o financeiro”.”A indústria é a nossa vergonha”. Inépcia destes agentes de nossa comunidade. Por que Inépcia?

Todo país subdesenvolvido é improdutivo por definição. Produtividade média é medida pelo PIB/capita em paridade de poder de compra (PPC). Sendo assim o problema de produtividade é tão óbvio quanto o fato do pobre ser pobre porque não tem dinheiro. Nosso PIB/capita PPC foi de US$15.690 em 2015 e o dos EUA de US$55.904. Estamos a 28% da produtividade dos EUA. Impossível competir de igual para igual em produtividade. Isto em todos os setores: agricultura, indústria, serviços, comércio, política, jurídico, educação, consultoria, energia etc. Por que brasileiros vão estudar nas melhores escolar americanas gastando 5 a 10 vezes o que gastariam para estudar nas melhores brasileiras? Por diferença de produtividade. O benefício que o ensino americano propicia ao brasileiro é 5 a 10 vezes superior ao que ele consegue aqui. A evidência está por exemplo nesta afirmação de que nosso problema é produtividade.

A verdadeira questão, o verdadeiro desafio, é como fazer um país crescer tendo em vista sua grande desvantagem de produtividade no ambiente internacional. O país cresce com a melhoria de sua produtividade média através de:

  • melhoria de processos nos empregos atuais
  • criação de mais empregos em setores de maior produtividade.

A melhoria de processos nos empregos atuais é lenta porque envolve aprendizado e pesquisa. O aumento de produtividade em novos empregos é rápido porque o trabalhador é inserido em contexto mais dinâmico. É o que acontece com trabalhadores rurais que vão para as cidades trabalhar em comércio, serviços ou construção. Ou que saem de construção e comércio para a indústria de transformação. Quanto mais qualificado o trabalho, maior a produtividade, maior a remuneração.

A melhoria de processos nos empregos atuais ocorre de maneira natural pelo interesse dos empresários em maximizar seus lucros. A maximização do lucro ocorre através da maximização de produtividade, ou seja, redução de custo unitário. Este mecanismo de mercado funciona independente de governo. É o instinto dos empresários, força do capitalismo. Vide gráfico Produtividade e Crescimento

Esta força dos empresários só é maximizada e transformada em crescimento econômico do país como um todo se as oportunidades de empreendimento lucrativo no país forem maximizadas, ou seja, se for viável produzir no país produtos e serviços de mais alto valor agregado. A viabilidade da produção destes serviços e produtos depende do custo internacional, que é influenciado pela produtividade e pela taxa de câmbio.  Neste contexto entra o governo. Se o governo definir nossa taxa de câmbio em patamar que torne os serviços e produtos brasileiros competitivos economicamente a nível internacional, os empresários irão investir e estabelecer estes negócios substituindo importações e maximizando exportações para todo o mundo.

Estes empresários podem ser brasileiros ou estrangeiros, empreendedores ou multinacionais. O importante é que empreguem mão-de-obra e paguem impostos no Brasil. Com o objetivo de maximizar a qualidade de vida dos brasileiros, quem deve eliminar empresário improdutivo tem que ser a competição nacional, não a de importados.

É extremamente importante entendermos esta visão de comunidade, ver o sistema econômico como um todo, colocando todos os cidadãos em uma sala (empresários, trabalhadores, políticos, pobres e funcionários públicos) e decidir políticas que sejam boas para todos brasileiros.

O que mais me decepciona nestes profissionais que colocam a culpa da falta de crescimento do Brasil nos empresários improdutivos é que, na prática, estão dizendo que os melhores brasileiros, que são aqueles capazes de se tornarem empresários, são incompetentes e improdutivos. Isto vindo de professores e economistas teóricos (que nunca geraram um emprego, nunca empreenderam) parece uma tremenda prova de inépcia. Se os melhores brasileiros são uns incompetentes, o Brasil não tem solução. Estes profissionais comprovadamente não tem o diagnóstico correto e uma boa solução para o Brasil.

Definição de empresário e empreendedor: profissional que investe capital próprio e de terceiros para criar e estabelecer um negócio lucrativo através de comercialização de produtos e serviços entregues através de mão-de-obra, equipamentos e fornecedores de insumos. A ação do empresário cria os empregos e tem o objetivo de maximizar lucro. Quanto maior a produtividade da operação do empresário maior o lucro dele. Sendo assim maximização de produtividade é a busca diária de todo e qualquer empresário. Reunir as habilidades necessárias para empreender com sucesso é extremamente difícil: conhecimento e capital. O capitalismo faz uma seleção natural destes indivíduos entre a população. Não há emprego sem os empresários. Mesmo o emprego público depende da arrecadação tributária que vem dos empresários. Neste contexto os empresários são economicamente falando os melhores brasileiros, os mais capazes para empreender correndo risco.

Nota: nosso agronegócio é competitivo devido a vantagens comparativas de clima e disponibilidade de recursos (terra). Nosso setor financeiro é competitivo só no mercado interno e através da taxa de juros bem acima da internacional. Nenhum destes setores são produtivos a níveis internacionais se comparados em termos de outputs físicos por hora trabalhada.

 

Publicado por

Eduardo Giuliani

Edu é empresário nos setores de agronegócio, bioenergia, venture capital e imobiliário. Trabalhou como consultor pela McKinsey & Co. (1991-97) e investidor pela Advent International (1998-99). Iniciou estudos sobre crescimento econômico em 1994 com o Curso National Economic Strategies de Bruce R. Scott na Harvard Business School (Membro do U.S. Competitiveness Policy Council). Cursou System Dynamics no MIT (1994). Liderou trabalho de produtividade em Telecomunicações e Construção no McKinsey Global Institute (1997). Engenheiro de Produção pela Escola Politécnica da USP (1989). MBA pela Harvard Business School (1995). Tenente da Reserva do Exército (1985). Casado. Três filhos. Tri-atleta.

3 comentários em “Produtividade e Inépcia”

  1. Bom dia Juliano!
    Trabalho com desenvolvimento de produtos, tenho contato direto com vários destes que vc pressupõe serem “o melhor do Brasil”.
    Com raras exceções, o empresário no Brasil, é um privilegiado, que herdou bens e dinheiro de família, e que empreende baseado na cultura que gerou este patrimônio, clientelismo, corrupção estatal, e cartórios de toda espécie.
    Quando mais arrojado, é um jogador, não um empresário.
    Vários se criaram sonegando impostos, com as costas largas de algum esquema local e não arriscam nem um centavo. Nao são tecnicamente empreendedores.
    Quando se fala em produtividade, não querem de forma alguma abrir mão de sua gestão centralista e equivocada, para um sistema de gestão de qualidade , realmente eficiente ( menos de 3% das empresas no Brasil tem ISO 9000.
    Trabalham no meio da ineficiência, obrigando seus colaboradores a vários desvios de função, tirando o foco que um sistema de gestão traria ( reclamam que o funcionário nao “veste a camisa”).
    No final, precisam de salários muito baixos, para poder subsidiar a ineficiência da gestão de suas fabricas, que tem quase sempre gente sobrando, mal treinada, sem estar focada na sua especificidade/especialidade na produção.
    Abço!

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    1. Alex, agradeço seu comentário. Empresário não é perfeito. Nenhum brasileiro é perfeito. E não é questão de ovo e galinha. O empresário é a semente necessária para que haja emprego e economia. Qualquer um pode ser empresário, mas tem que correr o risco de investir capital próprio, organizar o trabalho e fornecer um produto ou serviço. Não veja empresários só como os das grandes empresas. Empresários estão por todos os lados: padarias, postos, pequena e média indústrias, fazendas, clínicas. Olhe ao seu redor. Todo mundo que gera emprego é empresário. Os demais são funcionários que não teriam emprego se não houvesse um empresário pagando a conta. Os processos de qualidade com o qual você trabalha são muito importantes, contudo não garantem a sobrevivência da empresa se o mercado estiver ruim. O foco do empresário é em maximização do lucro. Se o negócio como um todo vai bem, ele pega parte da sobra do lucro e reinveste em sofisticações como qualidade, quando há muita incerteza sobre o futuro, estas melhorias passam a ser marginais. A questão de salário é mercado e custo-benefício. Sempre vai pagar o mais baixo possível e o empregado vai querer ganhar o mais alto possível. O equilíbrio é definido pelo mercado. Para salário subir vários empresários têm que estar oferecendo emprego e competir pelo recurso escasso mão-de-obra.

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  2. Bom dia Juliano!
    Trabalho com desenvolvimento de produtos, e posso te garantir que em si grande maioria os empresários nao querem se dar ao trabalho de criar e implantar sistemas de gestão de qualidade em suas linhas. Mais fácil e ficar culpando a ineficiência dos funcionários que nao sabem muito ao certo que função ou operação devem fazer a cada dia de trabalho.
    Estes “empresários”, que chamo de jogadores, precisam de mão de obra extremamente barata, para subsidiar sua falta de planejamento e gestão de qualidade.
    No Brasil, menos de 2% das empresas tem ISO 9000.
    Abço!

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