O Cálculo de R$8,30 (jan 2016)

Usar o câmbio para colocar o país em nível de competitividade econômica significa defini-lo em patamar que compense nossa baixa produtividade. Podemos definir a produtividade média do Brasil como sendo o PIB per capita em paridade de poder de compra em 2015 (IMF) US$15.690 comparado com o dos EUA de US$55.904. Estamos a 28% da produtividade dos EUA. Nosso PIB per capita na taxa de câmbio de 2015 foi de US$8.802, o que demonstra que estamos a um nível de desvalorização de 56% (8.802/15.690) quando deveríamos estar a 28% para compensar plenamente a baixa produtividade. Se considerarmos que o IMF usou o câmbio do final do ano de R$4, precisaríamos estar a R$8 para que nosso nível de desvalorização chegasse a 28%, e assim o PIB per capita em câmbio corrente seria de US$4.401. Esta é a lógica do cálculo do nível cambial para compensar a baixa produtividade.

Esta lógica pode ficar mais sofisticada se, ao invés de olharmos só para os EUA, fizermos uma comparação com várias outras economias que concorrem com a nossa. Ou também se concentrássemos esta análise com as produtividades específicas dos setores ‘tradables’.

Este patamar está próximo do valor de R$8,30 (janeiro 2016) que é a atualização das taxas médias do câmbio paralelo efetivo na década de 1980-90 (Taxa Efetiva). No período de 1985 a 1989 o Brasil cresceu 4,5% ao ano com inflação de dois a três dígitos e um câmbio oficial não tão desvalorizado quanto o paralelo. Como o Brasil ainda crescia e não estava em processo de desindustrialização, podemos imaginar que o ponto ideal teria sido a taxa do câmbio paralelo. Adicionalmente este patamar correspondia com a desvalorização da China na época.

Tabela de Competitividade Econômica Internacional (CEI).

 

Publicado por

Eduardo Giuliani

Edu é empresário nos setores de agronegócio, bioenergia, venture capital e imobiliário. Trabalhou como consultor pela McKinsey & Co. (1991-97) e investidor pela Advent International (1998-99). Iniciou estudos sobre crescimento econômico em 1994 com o Curso National Economic Strategies de Bruce R. Scott na Harvard Business School (Membro do U.S. Competitiveness Policy Council). Cursou System Dynamics no MIT (1994). Liderou trabalho de produtividade em Telecomunicações e Construção no McKinsey Global Institute (1997). Engenheiro de Produção pela Escola Politécnica da USP (1989). MBA pela Harvard Business School (1995). Tenente da Reserva do Exército (1985). Casado. Três filhos. Tri-atleta.

9 comentários em “O Cálculo de R$8,30 (jan 2016)”

  1. Giuliani, parabéns. Tardiamente estou lendo, mas quase três anos depois fica muito atual tua visão.
    Mas, como exemplo, temos uma pequena empresa de automação industrial e integra sistemas, todos eles, de origem estrangeira, chineses, alemães e italianos.
    Com um câmbio nessa ordem, simplesmente fecharemos as portas.
    Não busco qualquer tipo de protecionismo, mas um choque desse fará com que uma imensa parte da indústria e do setor de serviços desapareceriam imediatamente.
    Pode comentar algo a respeito?

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    1. Robinson, o conhecimento que vocês possuem dos equipamentos estrangeiros é fundamental para melhorar os equipamentos nacionais para atingirem este patamar de qualidade. Ao invés de estarem usando só equipamentos estrangeiros em seus serviços, vocês começarão a usar os nacionais, prestar serviço para melhorá-los e, eventualmente, criar suas próprias empresas nacionais para fabricarem estes tipos de equipamentos no Brasil. O importante para o Brasil é o conhecimento que vocês têm. A única coisa que vai mudar é a origem dos trabalhadores que produzirão os equipamentos que estaremos utilizando. Vocês não desaparecerão e sim terão clientes pedindo para vocês fabricarem os equipamentos no Brasil porque os importados estão muito caros. E em caso de exportação, os clientes não terão nenhum problema em continuar comprando equipamentos importados, visto que a receita deles é em USD mesmo.

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      1. Entendo. Será briga de Homens mesmo. Só nosso know how ´w pouco, mas é o que temos. A desindustrialização pela qual passamos nos tirou clientes praticamente não existem mais fabricantes de máquinas no país) e nossos fornecedores…nem mesmo um mísero processador é fabricado no Brasil.
        Em termos conceituais, é bastante fluida a tua visão e concordo plenamente.
        Mas demitir nossa força de trabalho de campo da noite para o dia e explicar isso às suas famílias…
        É evidente que sem choque e sem sacrifício, nosso país jamais mudaria. Nenhum mudou. A História nos recheia de exemplos e, no fim, todos temos medo. Mais que má-fé, é medo mesmo.

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  2. Dois pontos.

    (1) Como nossas exportacoes sao apenas ~12% do PIB (e em boa parte commodities), isso nao geraria mais problemas internos de inflacao e prejuizo aos consumidores pela falta de opcao de importar?

    (2) Nao seria mais importante enfretarmos o problema da produtividade antes de “chutar o balde” no cambio. Como a forte burocracia do estado (que podemos ver no ranking do Banco Mundial Easy of Doing Business), baixa integracao internacional, altas bairreiras para importar, infra estrutura de baixa qualidade e limitada, entre outros problemas.

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    1. Filipe, agradeço o comentário.

      (1) Este modelo prioriza a produção, não o consumo. Haverá inflação, com certeza, ao elevar o câmbio. Normalmente 20% do aumento do câmbio vira inflação. Contudo isto não é problema. Não há correlação entre inflação abaixo de 40% ao ano e crescimento econômico. Coréia do Sul cresceu a 10% ao ano de 1960 a 1980 com 19% de inflação. O importante é a geração de emprego e renda. Aumento de poder de compra dos trabalhadores. Inflação é uma simples variável do mercado para ajustar preço entre demanda e oferta. Laissez-faire. O aumento de demanda com a desvalorização vai subir os preços, aumentar o lucro dos empresários e o investimento para aumentar a oferta. Inflação baixa é relacionada a um bom planejamento econômico, que teremos mais para frente com boas previsões de demanda e oferta.

      (2) O caminho do crescimento é o caminho de aumento de produtividade. São sinônimos. PIB/cap. Para aumentar a produtividade precisamos engajar neste processo onde aumentamos o lucro dos empresários através do câmbio e viabilizamos uma série de empregos mais produtivos do que os informais que temos hoje. O salário médio do Brasil é de R$2,1K/mês, nível de empregada doméstica de SP. Qualquer emprego pagando mais do que isto aumenta nossa produtividade média. É o valor da industrialização. Todos estes empecilhos ao crescimento que você menciona são tabus. Crescer significa ir resolvendo estes problemas com o tempo. Se já tivéssemos resolvido tudo já seríamos um país rico.

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    1. No ambiente competitivo internacional o importante é o custo de seu valor agregado (mão-de-obra) em US$. Este fator define a competitividade de suas exportações e da substituição de importações. No caso da energia elétrica, os fatores de correção não são muito atrelados ao US$ no Brasil, visto o índice de reajuste permitido pela ANEEL que normalmente é atrelado ao custo dos insumos (p.ex. IPCA).

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